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Bhagavad-gita e Reencarnação PDF Imprimir E-mail
Escrito por Edinete Mello   
Qua, 18 de Janeiro de 2012 15:06

Segundo de três trechos da obra Voltando a Nascer, baseada nos ensinamentos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Cortesia BBT Brasil.



Muitos ocidentais, com o fim de obter uma compreensão mais profunda sobre a reencarnação, estão voltando-se às fontes originais do conhecimento sobre as vidas passadas e futuras. Entre todas as literaturas disponíveis, os Vedas da Índia, originalmente escritos em sânscrito, são as mais antigas obras da Terra e apresentam as explicações mais abrangentes e lógicas sobre a ciência da reencarnação, ensinamentos esses que têm mantido sua viabilidade e atenção universal por mais de cinco mil anos.

 

A informação mais fundamental sobre a reencarnação aparece no Bhagavad-gita, a essência do conhecimento védico e um dos mais importantes Upanisads. O Gita foi falado há cinquenta séculos pelo Senhor Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, para Seu amigo e discípulo Arjuna num campo de batalha ao norte da Índia. O campo de batalha é um lugar perfeito para uma discussão sobre a reencarnação, pois, em combate, os homens defrontam-se diretamente com as fatais perguntas sobre a vida, a morte e a vida futura.

 

Conforme Krsna começa a falar sobre a imortalidade da alma, Ele diz a Arjuna: “Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro algum de nós deixará de existir.” O Gita instrui adiante: “Saiba que aquilo que penetra todo o corpo é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível.”

 

Falamos aqui de algo tão sutil (a alma) que não é imediatamente verificado pela mente e sentidos humanos limitados. Portanto, nem todos serão capazes de aceitar a existência da alma. Krsna informa a Arjuna: “Alguns acham que a alma é algo espantoso, outros descrevem-na como algo espantoso, e outros ainda ouvem dizer dela como algo espantoso, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la.”

 

Aceitar a existência da alma é, entretanto, não apenas uma questão de fé. O Bhagavad-gita apela para a evidência de nossos sentidos e à lógica, de modo que possamos aceitar seus ensinamentos com algum grau de convicção racional e não cegamente, como um dogma.

 

É impossível entender a reencarnação a menos que conheçamos a diferença entre o eu verdadeiro (a alma) e o corpo. O Gita nos ajuda a ver a natureza da alma através do seguinte exemplo: “Assim como o Sol, sozinho, ilumina todo este universo, do mesmo modo a entidade viva, sozinha dentro do corpo, ilumina todo o corpo através da consciência.”

 

A consciência evidencia concretamente a presença da alma dentro do corpo. Num dia nublado, o Sol pode não ser visível, mas sabemos que ele está lá no céu, através da presença da luz solar. Analogamente, podemos não ser capazes de perceber diretamente a alma, mas podemos concluir que ela existe pela presença da consciência. Na ausência da consciência, o corpo é simplesmente um monte de matéria morta. Somente a presença da consciência faz com que esse monte de matéria morta possa respirar, falar, amar e temer. Essencialmente, o corpo é um veículo para a alma, através do qual ela pode satisfazer suas miríades de desejos materiais. O Gita explica que a entidade viva dentro do corpo está “sentada como sobre uma máquina feita de energia material.” A alma falsamente se identifica com o corpo, transportando suas diferentes concepções da vida de um corpo para outro, assim como o ar transporta os aromas. Do mesmo modo como um automóvel não pode funcionar sem a presença de um motorista, igualmente, o corpo material não pode funcionar sem a presença da alma.

 

Quando alguém envelhece, essa distinção entre o eu consciente e o corpo físico torna-se mais óbvia. Dentro do período de sua vida uma pessoa pode observar que seu corpo está mudando constantemente. Ele não dura para sempre, e o tempo prova que a infância é efêmera. O corpo vem a existir em certo momento, cresce e morre. O corpo físico, assim, é irreal, pois ele, no devido tempo desaparecerá. Como explica o Gita: “Não há duração para o não existente.” Contudo, apesar de todas as mudanças do corpo material, a consciência, um sintoma da alma que está dentro, permanece imutável. (“Não há cessação para o existente”) Podemos, portanto, concluir logicamente que a consciência possui uma qualidade inata de permanência que a capacita a sobreviver à dissolução do corpo. Krsna diz a Arjuna: “Para a alma nunca há nascimento nem morte... Ela não é aniquilada quando o corpo é aniquilado.”

 

Mas se a alma “não é aniquilada quando o corpo é aniquilado”, então o que acontece com ela? A resposta dada no Bhagavad-gita é que a alma entra em outro corpo. Isso é reencarnação. Este conceito pode ser difícil de ser aceito por algumas pessoas, mas é um fenômeno natural, e o Gita dá exemplos lógicos para facilitar nossa compreensão: “Assim como a alma corporificada passa, continuamente, nesse corpo, da infância à juventude e à velhice, a alma, do mesmo modo, passa a outro corpo na hora da morte. A alma autorrealizada não se confunde com tal mudança.”

 

Em outras palavras, o homem reencarna mesmo no curso de sua vida. Qualquer biólogo tem conhecimento de que as células do corpo estão constantemente morrendo e sendo substituídas por outras novas. Em outras palavras, cada um de nós tem certo número de “diferentes” corpos nesta própria vida. O corpo de um adulto é completamente diferente do corpo da mesma pessoa quando criança. Mas, apesar das mudanças corpóreas, a pessoas que está dentro permanece a mesma. Algo semelhante ocorre na hora da morte. O eu se submete a uma mudança final de corpo. O Gita diz: “Assim como uma pessoa veste roupas novas, abandonando as velhas, do mesmo modo a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis.” Assim a alma permanece enredada por um interminável ciclo de nascimentos e mortes. “Para aquele que nasce, a morte é certa; e para aquele que morre, o nascimento é certo”, o Senhor diz a Arjuna. De acordo com os Vedas existem 8.400.000 espécies de vidas, começando com os micróbios e amebas, passando pelos peixes, plantas, insetos, répteis, pássaros e animais, até os humanos e semideuses. As entidades vivas nascem perpetuamente nessas espécies, de acordo com seus desejos.

 

A mente é o mecanismo que autoriza essas transmigrações, impulsionando a alma para corpos cada vez mais novos. O Gita explica: “Qualquer estado de existência do qual a pessoa se lembre quando abandona seu corpo, esse mesmo estado alcançará sem falta em sua próxima vida.” Tudo o que pensamos e fazemos durante nossa vida deixa uma impressão na mente, e a soma total de todas essas impressões influencia nossos pensamentos finais na hora da morte. De acordo com a qualidade desses pensamentos finais na hora da morte, a natureza material concede-nos um corpo adequado. Portanto, o tipo de corpo que temos agora é a expressão de nossa consciência no momento de nossa última morte.

 

O Gita explica: “A entidade viva, aceitando assim outro corpo grosseiro, obtém certo tipo de olho, ouvido, língua, nariz e sentidos do tato, que se agrupam em volta da mente. Assim ela desfruta de um conjunto particular de objetos dos sentidos.” Além de tudo, o caminho da reencarnação nem sempre leva para o alto; o ser humano não tem garantia de um nascimento humano em sua próxima vida. Por exemplo, se alguém morre com mentalidade de um cachorro, então, em sua próxima vida, ele receberá os olhos, ouvidos, nariz, etc. de um cachorro, permitindo-se-lhe assim que ele desfrute de prazeres caninos. O Senhor Krsna confirma o destino dessa alma desafortunada dizendo: “Quando ela morre no modo da ignorância, nasce em corpo animal.”

 

De acordo com o Bhagavad-gita, os seres humanos que não indagam sobre sua natureza metafísica, superior, são compelidos pela lei do karma a continuar o ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos, aparecendo ora como humanos, ora como animais, ora como plantas e insetos.

 

Nossa existência no mundo material deve-se às múltiplas reações kármicas dessa vida e das anteriores, e o corpo humano fornece a única saída através da qual a alma materialmente condicionada pode escapar. Utilizando apropriadamente a forma humana de vida, pode-se resolver todos os problemas da vida (nascimento, velhice, morte) e quebrar o ciclo interminável de reencarnações. Se, entretanto, uma alma, tendo se desenvolvido até a plataforma humana, desperdiça sua vida ocupando-se unicamente em atividades para o prazer dos sentidos, ela pode facilmente criar karma suficiente nessa vida atual para manter-se enredada num ciclo de nascimentos e mortes por milhares e milhares de vidas. E talvez nem todas elas sejam humanas.

 

O Senhor Krsna diz: “Os tolos não podem entender como a entidade viva pode deixar seu corpo, tampouco podem compreender que espécie de corpo ela desfruta sob o encanto dos modos da natureza. Mas aqueles cujos olhos estão treinados em conhecimento podem ver tudo isso. O transcendentalista esforçado, que está situado em autorrealização, pode ver tudo isso claramente. Mas aqueles que não estão situados em autorrealização não podem ver o que está ocorrendo, embora eles possam tentá-lo.”

 

Uma alma afortunada o bastante para obter um corpo humano deve se esforçar seriamente pela autorrealização, por entender os princípios da reencarnação e libertar-se de repetidos nascimentos e mortes. Isto não podemos deixar de fazer.

 

Fonte: Amigos de Krishna