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Segundo de três trechos da obra Voltando
a Nascer, baseada nos ensinamentos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupada. Cortesia BBT Brasil.
Muitos
ocidentais, com o fim de obter uma compreensão mais profunda sobre a
reencarnação, estão voltando-se às fontes originais do conhecimento sobre as
vidas passadas e futuras. Entre todas as literaturas disponíveis, os Vedas da
Índia, originalmente escritos em sânscrito, são as mais antigas obras da Terra
e apresentam as explicações mais abrangentes e lógicas sobre a ciência da
reencarnação, ensinamentos esses que têm mantido sua viabilidade e atenção
universal por mais de cinco mil anos.
A
informação mais fundamental sobre a reencarnação aparece no Bhagavad-gita, a
essência do conhecimento védico e um dos mais importantes Upanisads. O Gita
foi falado há cinquenta séculos pelo Senhor
Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, para Seu amigo e discípulo Arjuna num campo de
batalha ao norte da Índia. O campo de batalha é um lugar perfeito para uma
discussão sobre a reencarnação, pois, em combate, os homens defrontam-se
diretamente com as fatais perguntas sobre a vida, a morte e a vida futura.
Conforme Krsna começa a falar
sobre a imortalidade da alma, Ele diz a Arjuna: “Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem
tu, nem todos esses reis; nem no futuro algum de nós deixará de existir.” O Gita
instrui adiante: “Saiba que aquilo que penetra todo o corpo é indestrutível.
Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível.”
Falamos
aqui de algo tão sutil (a alma) que não é imediatamente verificado pela mente e
sentidos humanos limitados. Portanto, nem todos serão capazes de aceitar a
existência da alma. Krsna informa a Arjuna: “Alguns acham que a alma é algo
espantoso, outros descrevem-na como algo espantoso, e outros ainda ouvem dizer
dela como algo espantoso, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não
podem absolutamente compreendê-la.”
Aceitar a existência da alma
é, entretanto, não apenas uma questão de fé. O Bhagavad-gita apela para
a evidência de nossos sentidos e à lógica, de modo que possamos aceitar seus
ensinamentos com algum grau de convicção racional e não cegamente, como um
dogma.
É impossível entender a
reencarnação a menos que conheçamos a diferença entre o eu verdadeiro (a alma)
e o corpo. O Gita nos ajuda a ver a natureza da alma através do seguinte
exemplo: “Assim como o Sol, sozinho, ilumina todo este universo, do mesmo modo
a entidade viva, sozinha dentro do corpo, ilumina todo o corpo através da
consciência.”
A consciência
evidencia concretamente a presença da alma dentro do corpo. Num dia nublado, o
Sol pode não ser visível, mas sabemos que ele está lá no céu, através da
presença da luz solar. Analogamente, podemos não ser capazes de perceber
diretamente a alma, mas podemos concluir que ela existe pela presença da
consciência. Na ausência da consciência, o corpo é simplesmente um monte de
matéria morta. Somente a presença da consciência faz com que esse monte de
matéria morta possa respirar, falar, amar e temer. Essencialmente, o corpo é um
veículo para a alma, através do qual ela pode satisfazer suas miríades de
desejos materiais. O Gita explica que a entidade viva dentro do corpo
está “sentada como sobre uma máquina feita de energia material.” A alma falsamente se identifica com o corpo, transportando suas
diferentes concepções da vida de um corpo para outro, assim como o ar
transporta os aromas. Do mesmo modo como um automóvel não pode funcionar sem a
presença de um motorista, igualmente, o corpo material não pode funcionar sem a
presença da alma.
Quando alguém envelhece, essa
distinção entre o eu consciente e o corpo físico torna-se mais óbvia. Dentro do
período de sua vida uma pessoa pode observar que seu corpo está mudando
constantemente. Ele não dura para sempre, e o tempo prova que a infância é
efêmera. O corpo vem a existir em certo momento, cresce e morre. O corpo
físico, assim, é irreal, pois ele, no devido tempo desaparecerá. Como explica o
Gita: “Não há duração para o não existente.” Contudo, apesar de todas as
mudanças do corpo material, a consciência, um sintoma da alma que está dentro,
permanece imutável. (“Não há cessação para o existente”) Podemos, portanto,
concluir logicamente que a consciência possui uma qualidade inata de permanência
que a capacita a sobreviver à dissolução do corpo. Krsna diz a Arjuna: “Para a
alma nunca há nascimento nem morte... Ela não é aniquilada quando o corpo é
aniquilado.”
Mas se a alma “não é
aniquilada quando o corpo é aniquilado”, então o que acontece com ela? A
resposta dada no Bhagavad-gita é que a alma entra em outro corpo. Isso é
reencarnação. Este conceito pode ser difícil de ser aceito por algumas pessoas,
mas é um fenômeno natural, e o Gita dá exemplos lógicos para facilitar
nossa compreensão: “Assim como a alma corporificada passa, continuamente, nesse
corpo, da infância à juventude e à velhice, a alma, do mesmo modo, passa a
outro corpo na hora da morte. A alma autorrealizada não se confunde com tal
mudança.”
Em outras palavras, o homem
reencarna mesmo no curso de sua vida. Qualquer biólogo tem conhecimento de que
as células do corpo estão constantemente morrendo e sendo substituídas por
outras novas. Em outras palavras, cada um de nós tem certo número de
“diferentes” corpos nesta própria vida. O corpo de um adulto é completamente
diferente do corpo da mesma pessoa quando criança. Mas, apesar das mudanças
corpóreas, a pessoas que está dentro permanece a mesma. Algo semelhante ocorre
na hora da morte. O eu se submete a uma mudança final de corpo. O Gita
diz: “Assim como uma pessoa veste roupas novas, abandonando as velhas, do mesmo
modo a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis.”
Assim a alma permanece enredada por um interminável ciclo de nascimentos e
mortes. “Para aquele que nasce, a morte é certa; e para aquele que morre, o
nascimento é certo”, o Senhor diz a Arjuna. De acordo com os Vedas existem
8.400.000 espécies de vidas, começando com os micróbios e amebas, passando
pelos peixes, plantas, insetos, répteis, pássaros e animais, até os humanos e
semideuses. As entidades vivas nascem perpetuamente nessas espécies, de acordo
com seus desejos.
A mente é o mecanismo que
autoriza essas transmigrações, impulsionando a alma para corpos cada vez mais
novos. O Gita explica: “Qualquer estado de existência do qual a pessoa
se lembre quando abandona seu corpo, esse mesmo estado alcançará sem falta em
sua próxima vida.” Tudo o que pensamos e fazemos durante nossa vida deixa uma
impressão na mente, e a soma total de todas essas impressões influencia nossos
pensamentos finais na hora da morte. De acordo com a qualidade desses
pensamentos finais na hora da morte, a natureza material concede-nos um corpo
adequado. Portanto, o tipo de corpo que temos agora é a expressão de nossa consciência
no momento de nossa última morte.
O Gita
explica: “A entidade viva, aceitando assim outro corpo grosseiro, obtém
certo tipo de olho, ouvido, língua, nariz e sentidos do tato, que se agrupam em
volta da mente. Assim ela desfruta de um conjunto particular de objetos dos
sentidos.” Além de tudo, o caminho da reencarnação nem sempre leva para o alto;
o ser humano não tem garantia de um nascimento humano em sua próxima vida. Por
exemplo, se alguém morre com mentalidade de um cachorro, então, em sua próxima
vida, ele receberá os olhos, ouvidos, nariz, etc. de um cachorro,
permitindo-se-lhe assim que ele desfrute de prazeres caninos. O Senhor Krsna
confirma o destino dessa alma desafortunada dizendo: “Quando ela morre no modo
da ignorância, nasce em corpo animal.”
De acordo
com o Bhagavad-gita, os seres humanos que não indagam sobre sua natureza
metafísica, superior, são compelidos pela lei do karma a continuar o
ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos, aparecendo ora como humanos, ora
como animais, ora como plantas e insetos.
Nossa existência no mundo
material deve-se às múltiplas reações kármicas dessa vida e das anteriores, e o
corpo humano fornece a única saída através da qual a alma materialmente
condicionada pode escapar. Utilizando apropriadamente a forma humana de vida,
pode-se resolver todos os problemas da vida (nascimento, velhice, morte) e
quebrar o ciclo interminável de reencarnações. Se, entretanto, uma alma, tendo
se desenvolvido até a plataforma humana, desperdiça sua vida ocupando-se unicamente
em atividades para o prazer dos sentidos, ela pode facilmente criar karma suficiente
nessa vida atual para manter-se enredada num ciclo de nascimentos e mortes por
milhares e milhares de vidas. E talvez nem todas elas sejam humanas.
O Senhor Krsna diz: “Os tolos
não podem entender como a entidade viva pode deixar seu corpo, tampouco podem
compreender que espécie de corpo ela desfruta sob o encanto dos modos da
natureza. Mas aqueles cujos olhos estão treinados em conhecimento podem ver
tudo isso. O transcendentalista esforçado, que está situado em autorrealização,
pode ver tudo isso claramente. Mas aqueles que não estão situados em
autorrealização não podem ver o que está ocorrendo, embora eles possam
tentá-lo.”
Uma alma afortunada o bastante
para obter um corpo humano deve se esforçar seriamente pela autorrealização,
por entender os princípios da reencarnação e libertar-se de repetidos
nascimentos e mortes. Isto não podemos deixar de fazer.
Fonte: Amigos de Krishna
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